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CRÍTICA | Parthenope é uma homenagem torta, mas estonteante

Atualizado: 20 de mar.

ESSA CRÍTICA CONTÉM SPOILERS!!!



Segundo o mito grego, Parthenope, o primeiro nome de Nápoles, foi uma ninfa de aparência deslumbrante que levou marinheiros à morte com seu canto de sereia. Assim foi batizada a protagonista do mais novo filme do diretor e roteirista italiano Paolo Sorrentino. No que tange à imagem e subjetividade, "Parthenope: Os Amores de Nápoles" traz características semelhantes a uma obra anterior do cineasta: "A Grande Beleza", que levou o Oscar de Melhor Filme Internacional em 2014. A narrativa propõe uma trama romântica e atraente mas, apesar de bela, não consegue apresentar um roteiro sólido ou conciso.


Reprodução/Paris Filmes
Reprodução/Paris Filmes

O ato inicial é sedutor. As composições limpas e harmônicas ressaltam o trabalho fenomenal da diretora de fotografia Daria D'Antonio ("Uma Alegoria Urbana" e "A Mão de Deus"). Quadros simétricos projetam na tela uma ideia de perfeição. Em meio às hipnotizantes paisagens napolitanas, somos introduzidos ao triângulo amoroso shakespeariano entre Sandrino (Dario Aita), Parthenope (Celeste Dalla Porta) e seu irmão Raimondo (Daniele Rienzo). Vemos um oceano de desejo transbordar, o cenário como um todo parece ser muito místico e as interações entre os amantes são ensaios delicados. O primeiro beijo só acontece depois de 50 minutos de filme. Neste ponto, já entendemos como a personagem se coloca em uma posição inalcançável.


Celeste Dalla Porta é magnética. Parthenope vive um constante endeusamento, e a atriz performa esse "campo de atração" com excelência. Os protagonistas são de uma família abastada. Em uma viagem do trio, Sandri, filho da empregada e amigo de infância do herdeiro, traz sua paixão platônica para realidade quando finalmente envolve Parthe em seus braços. Aqui o romance alcança a tragédia. Tudo vira de cabeça para baixo depois que Raimondo tira a própria vida em uma crise de amor por sua irmã. Parafraseando o padre (Peppe Lanzetta): "Aquele que sabe de tudo fica familiarizado com o indizível, morre jovem e só. É uma vertigem".

Reprodução/Paris Filmes
Reprodução/Paris Filmes

A história se desenvolve a partir da busca de Parthenope por uma vocação. Do momento em que ela considera se tornar uma grande atriz até quando decide se dedicar à carreira acadêmica como antropóloga, acompanhamos arcos soltos que não agregam ao desenrolar dos eventos. Os diálogos complexos e poéticos da jovem com seu professor Devoto Marotta (Silvio Orlando) e seu amigo americano John Cheever – destaque para a atuação irretocável de Gary Oldman – se sobressaem em um emaranhado de casos amorosos sem sentido algum.


A possível tentativa de associar uma intelectualidade maior à personagem para evitar algum tipo de objetificação cai por terra. O sexo perde propósito. O ar contemplativo cansa cada vez mais e dá espaço para exageros grotescos.

Reprodução/Paris Filmes
Reprodução/Paris Filmes

O longa constrói um paralelo entre a musa de Nápoles e a própria cidade. Num tom de homenagem, Sorrentino ilustra o contraste entre os cartões postais paradisíacos e a miséria e desigualdade do Sul da Itália. É interessante ver Stefania Sandrelli em uma versão amadurecida da protagonista, mesmo que com uma carga dramática desnecessária. Somos apresentados a uma mulher bem sucedida, mas que ainda carrega muita melancolia dentro de si. "Eu era triste e frívola, determinada e apática, como Nápoles. Onde sempre há um lugar para tudo".


É possível separar a produção em metades muito distintas. Senti como se tivesse assistido a dois filmes totalmente diferentes. Ensaia bem e decepciona aos poucos. A intenção é profunda, nobre e convidativa, mas se perde no meio do caminho.


Nota: 2,5/5




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